Ataques à imprensa marcam um ano de pandemia
  • 11.03
  • 2021
  • 17:00
  • Abraji

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Ataques à imprensa marcam um ano de pandemia

Assim como ativistas, profissionais de saúde, grupos políticos de oposição e críticos à gestão da crise sanitária pelo governo, os profissionais de comunicação tiveram que lidar com questões bastante específicas, como o aumento expressivo dos ataques direcionados à imprensa e a jornalistas. 

Em 2020, os ataques à imprensa atingiram patamar inédito, batendo um novo recorde. Segundo o relatório lançado, no início deste ano, pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), os casos de agressão aos profissionais de imprensa dobraram em relação ao ano anterior. Ao todo, foram registradas 428 ocorrências em 2020, o que representa um aumento de cerca de 106% em comparação ao ano de 2019. Os dados estão disponíveis no documento Violência Contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil

Na contramão do desejo de quem luta por mais respeito à imprensa e aos jornalistas, o novo ano se iniciou trazendo os problemas de 2020. Em janeiro deste ano, esses ataques mais do que dobraram se compararmos ao mesmo período do ano anterior, de acordo com o monitoramento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). O presidente Jair Bolsonaro proferiu 11 das 22 ofensas contra jornalistas por parte de agentes públicos. Até a publicação desta matéria, foram registrados 54 casos de agressão em 2021.

O monitoramento se baseia em 12 indicadores que sinalizam ameaças concretas à liberdade de imprensa e são utilizados pela rede Voces del Sur, formada por organizações da sociedade civil da América Latina e do Caribe - da qual a Abraji faz parte. 

A maior parte das agressões deste ano se refere a discursos estigmatizantes, com 43 casos. De acordo com a assessora jurídica da Abraji, Letícia Kleim, tais discursos funcionam como um impulso para outras formas ainda mais graves de ataque a jornalistas, “porque configuram uma campanha das autoridades públicas em descredibilizar a imprensa e mobilizar a opinião da sociedade no mesmo sentido”. 

Kleim afirma que “durante a pandemia, isso tem ficado mais forte porque o próprio presidente muitas vezes atribuiu os efeitos negativos da crise sanitária e econômica vivida no país à cobertura feita pela imprensa, e em diversas ocasiões chegou a incentivar que a população hostilizasse jornalistas e meios de comunicação”.

E os reflexos dessa campanha já são sentidos na rotina da profissão. Na manhã do dia 02.mar.2021, as equipes de reportagem da TV Gazeta, afiliada da TV Globo, e da TV Tribuna, afiliada do SBT, sofreram ameaças durante a cobertura da interrupção do fluxo de ônibus no bairro Planalto Serrano, na Serra (ES). A abordagem dos criminosos foi registrada ao vivo no programa Bom Dia ES da TV Gazeta.

No momento em que o repórter Diony Silva relatava que os coletivos foram impedidos de circular no bairro da Grande Vitória devido ao tiroteio ocorrido durante a madrugada do mesmo dia, dois homens em uma motocicleta se aproximaram da equipe para exigir que os jornalistas desligassem as câmeras e deixassem o bairro. 

O homem que estava na garupa da motocicleta chegou a apontar uma arma para o repórter, que definiu a situação como assustadora e diferente de todas as outras em que já havia sido ameaçado. “As ameaças têm sido mais frequentes, mas essa, com uma arma apontada para a minha cabeça, superou todas as outras. Ali, eu senti que era uma ameaça real e uma situação muito complicada, ainda mais por estar ao vivo. Quem enfrenta o ao vivo não está muito preocupado com as coisas. Ele estava em posição de ataque, com o dedo no gatilho. Foi lamentável o que aconteceu”.

No vídeo que foi ao ar, é possível ouvir o criminoso dizer "apaga tudo que vocês filmô (sic). Se eu ver (sic) saindo qualquer coisa no jornal vai ser pior para você. Apaga tudo e mete o pé". Quando os sujeitos se distanciam das equipes de reportagem, escuta-se um som de disparo de arma de fogo. 

A emissora de televisão divulgou uma nota lamentando o caso. “A Rede Gazeta lamenta o episódio de violência sofrido pelas equipes da TV Gazeta e da TV Tribuna. Também se solidariza com todos os cidadãos que, dia após dia, se veem reféns da criminalidade e da ousadia de bandidos. A Rede Gazeta destaca, ainda, que segue um código de conduta para preservação de seus funcionários. O nosso jornalismo não se intimidará com este episódio e continuará atuando, com precisão e equilíbrio, a favor da sociedade”.

Questionado sobre como a TV Gazeta pretende agir para proteger o repórter que foi diretamente ameaçado, o gerente de Relações Institucionais da organização Eduardo Fachetti declarou que a emissora possui um código de conduta que prevê uma série de situações na cobertura diária.

“Entre outros pontos,  essa norma estabelece que nenhum profissional da empresa é posto em situação de risco durante a atividade profissional. Além disso, o governo do Espírito Santo já garantiu esforços para identificar e punir os criminosos envolvidos no episódio” - disse Fachetti. Em seu perfil no Twitter, o governador do Espírito Santo, Renato Casagrande, também se manifestou sobre o ocorrido. “Não há espaço para esses atos no ES”.

No entanto, o relato de Diony Silva é claro em relação à questão da segurança ser quase “uma sensação criada” pelo jornalista. Em entrevista à Abraji, o repórter revelou que, por experiências de outras coberturas, acreditaram que havia policiais no local no dia em que o fato aconteceu. 

Neste cenário de hostilidade generalizada, é preciso ter um olhar atento ao viés de gênero, sobretudo no meio digital, onde as mulheres jornalistas são as mais afetadas. Segundo o estudo divulgado pela Abraji no Dia Internacional das Mulheres, elas foram vítimas de 56,76% das agressões em 2020. Nas redes sociais os ataques aparecem na forma de campanhas de intimidação e difamação, perseguição, assédio e até exposição de dados pessoais (doxxing). Além dos insultos gerais, as mulheres ainda recebem ofensas de cunhos machista e misógino. 

No último ano, a Abraji e o Observatório de Liberdade de Imprensa da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) lançaram a Cartilha sobre medidas legais para a proteção de jornalistas contra ameaças e assédio online, resultado de um acordo entre as duas entidades. A publicação fornece orientações sobre como proceder em casos de ataques virtuais e assédios direcionados a jornalistas. 

 

Foto: Reprodução/ TV Gazeta

.: Confira o evento Mulheres no Jornalismo, organizado pela Abraji em parceria com a Embaixada e os Consulados dos Estados Unidos, no dia 08.mar.2021.

 

Assinatura Abraji