
- 24.07
- 2026
- 09:00
- Samara Meneses
Acesso à Informação
Abraji registrou 204 alertas de violações à liberdade de imprensa no Brasil em 2025
A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) divulgará, durante o 21º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, seu mais novo relatório, "Ataques gerais e violência de gênero contra jornalistas no Brasil". O estudo registrou 204 alertas de ataques contra jornalistas e meios de comunicação no Brasil em 2025. O número variou 2,9% para baixo em relação ao registrado em 2024, indicando uma aparente estabilidade, mas sem representar uma melhoria estrutural nas condições de exercício do jornalismo.

O que a organização destaca é a persistência da violência em um patamar preocupante contra profissionais da imprensa. Os principais alvos foram repórteres e analistas, presentes em 68,6% dos alertas. As agressões verbais, escritas e digitais foram o tipo mais frequente de violência, presentes em 36,3% dos alertas, seguidas pelas agressões físicas (27%) e pelo discurso estigmatizante (25%).

Agressões verbais, escritas e digitais lideram os registros de alertas em 2025
Em 55,4% dos alertas, os casos tiveram origem ou repercussão no ambiente online, representando um cenário de maior dificuldade para a identificação dos agressores e de prolongamento da exposição das vítimas.
O relatório também identifica a relevância da cobertura ambiental em 2025, ano da COP30, em Belém. Foram registrados 12 ataques relacionados, em alguma medida, a temas ambientais e climáticos, dos quais 75% ocorreram a partir de setembro, período de maior mobilização em torno da conferência.
Perfil dos agressores e violência de gênero
Em 2025, atores não estatais apareceram em 44,6% dos alertas, enquanto agentes estatais estiveram presentes em 43,6%. A proximidade entre os percentuais mostra que a violência contra jornalistas é reproduzida tanto por estruturas institucionais quanto por cidadãos comuns, grupos organizados, autoridades, figuras públicas e atores difusos. Entre os agressores com gênero identificado, 87,8% eram homens.

Agentes estatais e não estatais lideram perfil de agressores à jornalistas
A violência de gênero esteve presente em 15,2% dos alertas. Mulheres representaram 30,2% das vítimas com gênero identificado. Entre os alertas com violência explícita de gênero, 77,4% envolveram comentários machistas, misóginos ou LGBTfóbicos, enquanto 16,1% corresponderam a atos discriminatórios diretos.

São Paulo concentra maior parte dos casos
A distribuição territorial mostra concentração no Sudeste, com 35,3% dos casos, seguido pelo Nordeste (19,6%), Centro-Oeste (17,2%), Norte (13,7%) e Sul (11,8%).
A região Sudeste concentra 72 dos 204 casos registrados, o equivalente a 35,3% do total. Dentro desse recorte, o estado de São Paulo se destaca com 39 ocorrências (19,1%), seguido pelo Rio de Janeiro, com 26 casos (12,7%). O Distrito Federal também aparece entre os principais polos, com 20 registros (9,8%).

São Paulo é o estado com maior número de alertas em 2025
Estratégias de segurança
No ambiente digital, é fundamental reduzir vulnerabilidades antes que os ataques ocorram. Isso inclui:
- ativar a autenticação em dois fatores em e-mails, redes sociais e aplicativos de mensagens;
- usar senhas fortes e gerenciadores de senhas;
- evitar clicar em links suspeitos;
- proteger informações pessoais e familiares;
- restringir dados de localização;
- separar perfis profissionais das contas pessoais.
Também é importante preservar evidências. Em casos de ameaças, campanhas de assédio, exposição de dados pessoais, mensagens ofensivas ou ataques coordenados, jornalistas devem guardar capturas de tela, links, datas, horários, perfis envolvidos e qualquer outra informação que possa auxiliar na documentação do caso.
Na cobertura presencial, antes de cobrir manifestações, eventos esportivos, conflitos locais, operações policiais, pautas ambientais ou outras situações de maior tensão, jornalistas e redações devem:
- avaliar os riscos;
- definir rotas de entrada e saída;
- estabelecer protocolos de comunicação e de tomada de decisões;
- sempre que possível, evitar que profissionais atuem sozinhos.
Redações e empresas de comunicação também têm responsabilidade direta na proteção de suas equipes. É necessário adotar protocolos de segurança e oferecer treinamento para coberturas de risco.
Diante desse cenário, organizações como a Abraji, a Artigo 19 e a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) disponibilizam materiais com orientações e recomendações para fortalecer a segurança física, digital e jurídica de jornalistas e veículos de comunicação. Alguns desses materiais podem ser consultados nos links abaixo:
- Guia de segurança para comunicadores em coberturas políticas (Artigo 19)
- Guia de proteção e segurança para comunicadores e defensores de direitos humanos
- Cartilha aborda princípios de segurança para jornalista freelance
- Segurança digital para jornalistas: como se defender de ameaças online
Nos casos de assédio judicial, é importante que jornalistas e veículos busquem orientação especializada desde os primeiros sinais de intimidação. A Abraji monitora essa situação por meio do projeto Monitor de Assédio Judicial. A segunda edição do levantamento registrou 130 novos casos entre 2024 e setembro de 2025.
Lançado inicialmente em 2024, com 654 processos mapeados, o relatório atualizado ampliou esse número para 784 ações registradas ao longo dos últimos 11 anos. O monitoramento reúne casos de uso do sistema de Justiça para intimidar ou silenciar profissionais da imprensa. Confira o Monitor através do link.
Além disso, a Abraji oferece o Programa de Proteção Legal para Jornalistas. Financiada pela organização internacional Media Defence e realizada em parceria com o Instituto Tornavoz, a iniciativa oferece assistência jurídica gratuita a profissionais que sofrem constrangimentos por meio de ações judiciais ou que buscam responsabilizar civilmente seus agressores.
Jornalistas e comunicadores que se enquadram nos critérios do Programa de Proteção Legal podem solicitar atendimento por meio de formulário específico ou pelo e-mail oficial da Abraji: [email protected].
Lançamento do Relatório
O relatório "Ataques gerais e violência de gênero contra jornalistas no Brasil" será lançado durante o 21º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, durante a palestra "Ataques a jornalistas em 2026: mapeamento até aqui e o que esperar do período eleitoral", que contará com a participação de Letícia Kleim, coordenadora jurídica da Abraji, Tatiana Farah, colunista de política no UOL e gerente de comunicação da Abraji, e Fábio Bispo, jornalista da Sumaúma. A mediação será de Dyepeson Martins, repórter da Agência Pública. Clique aqui e garanta sua participação na atividade.