
- 23.01
- 2026
- 10:49
- Samara Meneses
Liberdade de expressão
Você precisa se mostrar forte o tempo todo?
Em 2026, a discussão sobre saúde mental continua sendo essencial, especialmente no meio jornalístico, onde os profissionais enfrentam desafios constantes, como coberturas sensíveis, longas jornadas de trabalho e o enfrentamento de ataques e processos judiciais devido à profissão. A pesquisa The Burnout Crisis in Journalism: Solutions for Today’s Newsroom, lançada em fevereiro de 2024 pelo Reynolds Journalism Institute, revelou que 80% dos entrevistados consideram o burnout uma questão crítica no jornalismo atual.
Esse cenário reforça a necessidade de ampliar o debate sobre o bem-estar dos jornalistas, como apontou a gerente de comunidade do Redes Cordiais, Bibiana Maia da Silva, durante o 19º Congresso da Abraji, em uma mesa sobre Como Proteger a Saúde Mental do Jornalista. O tema também foi abordado por ela em artigo publicado na nona edição do especial Jornalismo no Brasil em 2025, projeto do Farol Jornalismo em parceria com a Abraji.
Na ocasião, Bibiana destacou que muitos profissionais relatam sentir culpa e vergonha por não estarem bem mentalmente. “Fazemos muitas horas extras, enfrentamos longas jornadas e descuidamos da alimentação, do sono e da prática de atividades físicas. Isso tudo dificulta lidar com a rotina, pois não temos os pilares essenciais para uma vida saudável e, consequentemente, para uma mente saudável”, afirmou.
O tema voltou a ser debatido no 20º Congresso da Abraji, realizado no ano passado, que contou com uma mesa dedicada à discussão de estratégias para proteger a saúde mental de jornalistas. A atividade reuniu Adriana Garcia, da Secretaria-Executiva da Abraji, e Marcelle Chagas, jornalista e fundadora da Rede de Jornalistas Pretos pela Diversidade na Comunicação.
A relação entre violência, descredibilização da imprensa e saúde mental também é abordada no especial Jornalismo no Brasil em 2026, em artigo de Cristina Zahar. Ao analisar o aumento dos ataques, especialmente no ambiente online, e a perda de confiança no jornalismo, o texto chama atenção para os impactos desse cenário sobre o bem-estar emocional dos profissionais, que seguem atuando sob pressão constante e desgaste psicológico.
Cobertura de eventos extremos
Em 2020, segundo números divulgados pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), 61,25% dos jornalistas brasileiros afirmaram ter notado aumento da ansiedade e do estresse durante o período pandêmico. O levantamento foi realizado pela Federação Internacional dos Jornalistas e recebeu respostas de 77 países, sendo os brasileiros os que mais participaram, contabilizando 22% das respostas.
A jornalista e pesquisadora Cilene Victor já publicou e contribuiu com estudos sobre os impactos psicológicos nos jornalistas devido à sua atuação, especialmente em coberturas de eventos extremos. Ela explica que, na cobertura de pautas envolvendo sofrimento humano em larga escala – como guerras, conflitos armados, violência generalizada, desastres climáticos, etc – é comum que os jornalistas acreditem serem capazes de lidar sozinhos com situações de intenso estresse, negligenciando sua própria saúde.
“Testemunhar a dor e o sofrimento de pessoas ou comunidades não deve ser tratado como algo corriqueiro. Tratar jornalistas como heróis desumaniza esses profissionais e subestima os riscos à sua saúde física e mental”, afirma.
Por que os jornalistas não buscam ajuda?
Victor menciona uma referência importante nos estudos sobre a saúde mental de jornalistas: o psiquiatra sul-africano Anthony Feinstein, da Universidade de Toronto, no Canadá. De acordo com os estudos de Feinstein, uma das principais razões pelas quais jornalistas não buscam apoio psicológico é o medo de perder o cargo ou de não serem escolhidos para determinadas coberturas.
A jornalista defende que as práticas no jornalismo devem ser baseadas na transparência e no combate à desumanização dos profissionais, que muitas vezes são reduzidos a alvos de críticas e ofensas por erros ou pela linha editorial de seus veículos, ou transformados em heróis pelos acertos, coragem e assertividade.
“Veículos de comunicação e editores precisam estar sensíveis e conscientes de que jornalistas não são heróis e, portanto, sentirão os impactos de testemunhar a dor e o sofrimento, além de não conseguirem dizer não a atribuições com longas jornadas de trabalho. Oferecer suporte psicológico, sem tabu, é essencial para gerenciar esses riscos, incluindo o auto-silenciamento”, afirma Victor.
Ela sugere que uma prática eficaz para enfrentar o problema é o debate, com o apoio das entidades de classe, sindicatos, escolas de jornalismo e outras instituições que reconheçam a urgência do tema. “A prática do diálogo, dentro e fora das redações, é um grande ponto de partida para o enfrentamento desse problema. Não podemos seguir fingindo que está tudo bem”, diz.
Victor ainda ressalta que tanto a sociedade quanto os veículos de imprensa subestimam os impactos da cobertura política no Brasil, uma das fontes de violência cotidiana contra a imprensa, que tende a ser naturalizada. De acordo com a Coalizão em Defesa do Jornalismo (CDJor), durante o período eleitoral de 2024 foram identificados mais de 57 mil ataques digitais contra a imprensa nas redes sociais.
A especialista afirma que os dados mostram a crescente hostilidade contra jornalistas e seus impactos diretos no ânimo e na saúde psicológica dos profissionais. Segundo ela, a falta de disposição para coberturas mais delicadas pode ser um sinal de alerta para a saúde mental do jornalista. "Quando o próprio jornalista se retira de cena, é porque o risco já se tornou muito elevado e ele pode ter se sentido sozinho para lidar com o problema", explica.
A importância da rede de apoio
Victor também destaca que o assédio judicial é uma das principais fontes de estresse e preocupação para muitos jornalistas, especialmente para aqueles que trabalham em veículos menores, que geralmente não possuem um departamento ou assessoria jurídica. Como resultado, muitos desses profissionais acabam enfrentando esse risco sozinhos.
Ela reforça que esse problema precisa ser gerenciado de forma coletiva, pois o assédio judicial tem sido um recurso violento utilizado para o silenciamento da imprensa. "As organizações de mídia precisam não apenas estar preparadas para lidar com o problema, mas também ser vistas como fortes o suficiente para proteger os jornalistas. O pior não é estar sozinho, mas sentir que está lutando sozinho e ser abandonado quando o caso perde visibilidade. Devemos fortalecer as instituições de classe para que os jornalistas não enfrentem essa luta sozinhos", destaca.
O Redes Cordiais, em parceria com o Instituto de Tecnologia e Sociedade e com o apoio do Meta Journalism Project, lançou o Guia de Saúde Mental para Jornalistas em 2022. Editado e revisado por Katia Brembatti, ex-presidente da Abraji, o guia reúne orientações e depoimentos sobre como jornalistas podem enfrentar os desafios da profissão enquanto cuidam de sua saúde mental.
O Programa de Proteção Legal para Jornalistas da Abraji é uma ferramenta que oferece suporte e orientação para garantir a segurança dos profissionais de imprensa. Financiado pela Media Defence e em parceria com o Instituto Tornavoz, o programa oferece assistência jurídica gratuita a jornalistas e comunicadores silenciados ou constrangidos por processos judiciais, além daqueles assediados, ameaçados e perseguidos que desejam processar civilmente seus agressores.
Profissionais que precisam de orientação jurídica em casos de assédio e ameaça online são atendidos pelo convênio entre a Abraji e o Observatório de Liberdade de Imprensa da OAB. Para saber mais sobre como se defender de ameaças online clique no link. As inscrições para o programa podem ser feitas por este formulário ou através do email [email protected]