Como foi feito: as histórias não contadas de migrantes da América Latina
  • 31.05
  • 2021
  • 16:30
  • Por Mariana Limón*

Formação

Como foi feito: as histórias não contadas de migrantes da América Latina

Texto originalmente publicado pela Global Investigative Journalism Network (GIJN).

Mas em um ambiente onde os debates sobre as questões da migração se misturam muitas vezes a uma linguagem ultranacionalista, qual é a melhor maneira para os jornalistas descreverem um fenômeno tão complexo e mutante como a migração, e uma história com múltiplas origens e destinos?

No projeto Migrantes de otro mundo (Migrantes de outro mundo), uma equipe de mais de 40 jornalistas em mais de uma dezena de países decidiu colaborar para contar a história dos migrantes da Ásia e da África que viajam pela América Latina a cada ano.

Como os criadores do projeto afirmam: “Por sua natureza errante, a migração é uma história que só pode ser contada adequadamente através da colaboração”.

Sua investigação transfronteiriça, que ocorreu ao longo de vários meses, usou dados para descobrir um caminho migratório que permaneceu quase invisível, até mesmo em relatórios da Organização Internacional para as Migrações (OIM).

A colaboração - que foi publicada em várias etapas ao longo de 2020 - revelou as histórias marcantes de migrantes que viajam entre 10.000 e 15.000 quilômetros para chegar à América Latina e, a partir daí, atravessam várias fronteiras para chegar aos Estados Unidos e ao Canadá. O projeto foi feito concentrando-se no jornalismo e na colaboração locais e por meio de alianças entre veículos. 

No total, 24 organizações de mídia em 14 países fizeram parte do projeto, resultando em uma colaboração de mais de 40 repórteres e editores, cinegrafistas, fotógrafos, programadores, designers e artistas. A história final foi contada nas duas principais línguas do continente, espanhol e português, além de inglês e francês.

A investigação foi conduzida por María Teresa Ronderos, fundadora e diretora do Centro Latino-Americano de Jornalismo Investigativo (CLIP, na sigla em espanhol).

Na página principal do projeto, a reportagem é dividida em cinco capítulos para ilustrar a realidade das jornadas de migrantes e refugiados pela América Latina: detalhando o que eles encontram no caminho e descrevendo os obstáculos que governos e grupos criminosos colocam diante deles. Mapeando as mortes e desaparecimentos de migrantes nessas rotas e mostrando como as restrições governamentais às viagens ajudaram a criar um enorme mercado - repleto de corrupção, “coiotes” e tráfico de pessoas - em que são pagos milhares de dólares em cada etapa da viagem.

Imagem: Migrantes de otro mundo.
Imagem: Migrantes de otro mundo.

A investigação também revelou novos dados ao analisar informações oficiais e fazer pedidos de dados de países que faziam parte do projeto - descobrindo, por exemplo, que acredita-se que entre 13.000 e 24.000 migrantes e refugiados asiáticos e africanos viajam por esta rota a cada ano. A reportagem também revelou o caráter expansivo de algumas dessas viagens, começando em diferentes países como Camarões, Índia, República Democrática do Congo, Bangladesh, Angola e Sri Lanka.

Analisando as peças de um quebra-cabeça global

A ideia de criar Migrantes de Otro Mundo surgiu em um workshop sobre migração em 2019, no México, ministrado por Ronderos, uma jornalista colombiana.

Antes disso, as reportagens publicadas sobre esse fenômeno haviam focado apenas em partes das jornadas dessas pessoas. Alguns se concentraram em tentativas de cruzar as fronteiras onde os migrantes morreram. Mas Ronderos acreditava que existiam lacunas enormes, o que levanta algumas questões importantes: Quem eram essas pessoas? De onde elas vieram? Como elas chegaram à América Latina? Por que elas viajaram e onde foram parar?

“Eu vi que havia um vazio”, Ronderos disse à GIJN. “Vi uma história fascinante que estava perfeitamente invisível. A mídia havia mostrado peças de um quebra-cabeça aos leitores, mas não era possível ver a imagem inteira”.

Então ela começou a traçar um plano. O primeiro passo foi buscar parceiros dentro e fora da América Latina com o objetivo de criar alianças com veículos de comunicação e jornalistas em pontos-chave da história.

Quando o grupo se reuniu no México, eles já haviam montado a equipe. Também buscaram o apoio de organizações internacionais, como o Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP) com base na Europa, a Fundación Avina e a Fundação Internacional de Seattle, entre outras.

“A partir daí traçamos um plano, definimos as linhas de trabalho, os tipos de dados que buscaríamos”, conta Ronderos. “Fizemos um workshop de treinamento em segurança digital e aceitamos as condições”. Estas incluíam respeitar a data de publicação e aceitar que o CLIP sugerisse edições e verificasse os dados.

Ela explica que a obtenção dos dados foi um grande obstáculo por vários motivos: registros insuficientes sobre esses migrantes, falta de transparência no acesso aos números, dados alterados por fontes oficiais e diferentes critérios usados por diferentes países.

Por fim, o CLIP criou seus próprios bancos de dados depois que os parceiros de reportagem fizeram pedidos de informações para bancos de dados públicos em seus respectivos países. Esses dados foram complementados por números provenientes de solicitações da Freedom of Information Act (a Lei de Acesso a Informação norte-americana) nos Estados Unidos e de relatórios publicados por diferentes organizações. O Excel foi usado para sistematizar os dados e a plataforma Tableau para analisá-los. O CLIP revisou os dados para checar as fontes e verificar se os números eram comparáveis.

No total, os participantes do projeto trabalharam por nove meses rastreando e relatando histórias, criando esses bancos de dados do zero e criando conteúdo multimídia que apareceria no site principal.

A comunicação foi fundamental. Além das discussões gerais, houve reuniões de subgrupos para reportagens específicas e outras para acompanhamento ou para revisar o progresso. Ao longo do processo, explica Ronderos, houve comunicação constante por meio de plataformas de trabalho e chats.

Em mar.2020, começou o processo de edição: algumas matérias foram descartadas, enquanto as que seriam publicadas passaram por pelo menos cinco revisões para edição e verificação dos dados. Para histórias individuais, cada veículo editou seu próprio texto, enquanto as histórias que apareciam no site principal eram editadas pela equipe do CLIP, garantindo que os colaboradores sentissem que os textos finais eram consistentes com suas descobertas.

Fenômeno oculto, história global

“Este projeto é importante porque conta [aos leitores] uma história sobre a migração que está acontecendo por baixo dos panos”, disse Alberto Pradilla, repórter da Animal Politico, um dos parceiros mexicanos do projeto. “Mas é um fenômeno que não pode mais ser escondido.”

Para Pradilla, as histórias de migrantes ressoam em todo o mundo e estão interconectadas. Ele diz, por exemplo, que cobrir um naufrágio em Chiapas, no México, o levou a pensar nos migrantes africanos e requerentes de asilo que morrem todos os anos no Mediterrâneo. Ele viu o que estava acontecendo na América Latina como a história se repetindo: a mesma tragédia de migrantes que fazem viagens perigosas enquanto tentam escapar de leis injustas ou de lugares cheios de violência ou pobreza.

Ele diz que embora o fenômeno seja global, as narrativas que lidam com a migração tendem a ser preconceituosas ou incompletas. E, diz ele, isso fica evidente na linguagem usada para cobrir a migração: alguns relatórios usam uma linguagem relacionada a criminologia para descrever um fenômeno humano, outros usam termos puramente de assistência humanitária ou de invasões e crises.

Imagem: Migrantes de otro mundo.

O projeto do CLIP buscou fazer o público entender o fenômeno da migração como um processo global, entrelaçado com histórias humanas - para mostrar que não se trata apenas de números, tragédias isoladas ou respostas nacionalistas.

“Queríamos mostrar que as pessoas que migram são seres humanos como nós, que todos temos sonhos”, explica Ronderos. “Então, por que essas barreiras estão sendo colocadas e por que estamos tratando os migrantes com racismo e xenofobia? Por que existem tantos medos construídos artificialmente se eles são como nós?"

Eileen Truax, uma premiada repórter que cobre migração e que não fez parte do projeto, acredita que ele teve sucesso onde muitos outros falharam. Ela diz que o projeto teve êxito em humanizar os migrantes, em parte devido às múltiplas formas e ângulos com que as histórias foram publicadas.

“Este projeto consegue combinar dados e histórias de maneira experiente e apresentar tudo de uma forma muito eficaz”, explica Truax. “Dá ao leitor uma clareza enorme sobre a distância, o esforço e as condições em que viajam essas pessoas”.

“Na América Latina estamos acostumados com a rota da América Central para os EUA, mas ver como essa rota é pequena em comparação com a de alguém que vem da Ásia ou da África, é impressionante”, diz ela. “Isso leva o público a pensar: ‘O que deve estar acontecendo em um país para que alguém esteja disposto a fazer tudo isso para sair?’ E essa é a chave para começar a entender a migração”.

Colaborando para construir um projeto investigativo transfronteiriço

Ronderos diz que existem diferentes maneiras de criar um projeto de pesquisa colaborativa como este. “Em muitos projetos, cada parte foca em seu próprio país, na história que presumem ser interessante para seu público. Nesse projeto, entendemos que a colaboração tinha que ser mais radical: não podia ser 'eu vou fazer só a minha reportagem’, porque no final você acaba com uma história local, quando o que você precisa fazer é contar uma história que não se limita a fronteiras nacionais”.

Ela faz as seguintes sugestões:

  1. Monte uma equipe que tenha algum conhecimento do assunto. É fundamental que os membros da equipe entendam o assunto - e sejam apaixonados por ele - pois esses projetos colaborativos são demorados e exigem trabalho constante. Isso é especialmente verdade quando as primeiras informações precisam ser encontradas.
     
  2. Colete informações. Certos materiais - como legislações, estatísticas, fontes judiciais ou policiais - podem ser compilados e compartilhados para serem usados em matérias relevantes.
     
  3. Organize um espaço para compartilhar informações. Pode ser no Google Drive ou em uma plataforma mais sofisticada, mas é importante ter boas práticas de segurança, como senhas que misturam números, símbolos e dígitos, ou sistemas de criptografia. Em Migrantes de Otro Mundo, a equipe criou o La Vecindad - que em espanhol significa “a vizinhança”. Esta plataforma criptografada foi criada por Rigoberto Carvajal, arquiteto de dados do CLIP, e continha recursos como os do Drive, do GoogleDocs, do Trello e do Slack. Isso o tornou um espaço onde os repórteres podiam fazer upload de documentos, editar textos e tabelas, monitorar o fluxo dos processos editoriais e se comunicar, mantendo o projeto e suas informações seguras. La Vecindad está disponível para projetos em que o CLIP seja parceiro e também existe a possibilidade de liberar o seu uso a outros grupos que queiram colaborar além fronteiras.
     
  4. Trabalhe em histórias que reflitam seus temas principais. Quando o processo de reportagem estiver 90% concluído, é importante se reunir para discutir as histórias finais. Cada artigo ou vídeo precisa pintar uma imagem que ajude a ilustrar a investigação geral. O processo desde os primeiros rascunhos até a publicação final pode levar de dois a três meses.
     
  5. Procure financiamento adicional. É importante formar alianças com organizações que financiam projetos de jornalismo, pois esses recursos podem ser usados para cobrir despesas de viagens que os próprios veículos não conseguem pagar. Receber esse financiamento significa que você não precisa excluir nenhum aspecto por motivos financeiros.
     
  6. Elabore uma estratégia de narrativa e de visualização de informações. A história deve ser contada da melhor forma possível, portanto, busque novas narrativas para despertar o interesse do público. Certifique-se de que as matérias transmitam com sucesso todas as emoções das pessoas cujas histórias estão sendo contadas, seja angústia ou o desejo de buscar um futuro melhor.
     
  7. Seja flexível e tenha paciência. É crucial entender com essas colaborações que diferentes equipes têm diferentes restrições de tempo e trabalho. Se você deseja executar um projeto como este, precisa ser flexível e paciente. Ao mesmo tempo, é importante manter a equipe motivada com a reportagem e seu andamento.

Leitura Adicional

Consulte o Centro de Recursos da GIJN para maiores detalhes relacionados a reportagens sobre migração, diretrizes sobre como reportar a migração de forma ética e nosso guia para Tráfico Humano, Trabalho Forçado e Escravidão. Para saber mais sobre colaboração, veja nossas publicações anteriores aqui.

*Mariana Limón é uma jornalista freelancer mexicana que escreve sobre gênero, globalização, direitos humanos e cultura pop, entre outros temas. Ela é particularmente interessada em comunidades digitais e novas narrativas. Ela escreveu para Vice, GQ e Chilango.com

Tradução: Ana Beatriz Assam

Assinatura Abraji