Abraji lança relatório sobre ataques a jornalistas e discute o que esperar do período eleitoral no 21° Congresso
  • 13.08
  • 2026
  • 09:19
  • Samara Meneses

Liberdade de expressão

Abraji lança relatório sobre ataques a jornalistas e discute o que esperar do período eleitoral no 21° Congresso

O relatório "Ataques gerais e violência de gênero contra jornalistas no Brasil" já está disponível e foi lançado no 21º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, durante a mesa "Ataques a jornalistas em 2026: mapeamento até aqui e o que esperar do período eleitoral". A atividade contou com a participação de Letícia Kleim, coordenadora jurídica da Abraji, Tatiana Farah, colunista de política no UOL e gerente de comunicação da Abraji, e Fábio Bispo, da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas). A mediação foi realizada por Dyepeson Martins, repórter da Agência Pública. 


Clique aqui para acessar o levantamento completo!

 

Letícia Kleim detalhou os enfoques desse levantamento não apenas em ataques gerais — 204 registrados em 2025 —  mas também sob a perspectiva de gênero. Para a Abraji, trazer esse recorte é importante na compreensão de que a violência contra a imprensa não afeta da mesma forma todos os jornalistas, principalmente as mulheres e pessoas LGBTQIAP+. 

“As mulheres são as principais vítimas dos ataques online. A grande preocupação é a respeito do estigma nesses tipos de violência, que fazem com que elas tenham receio de denunciar ou sintam a denúncia como uma revitimização. É importante reconhecer os impactos desproporcionais dessa violência para mulheres e LGBTs e que muitas vezes não conseguem ser registrados por números por uma questão de autocensura e falta de denúncias”, afirmou Letícia.  

 O relatório informa que a violência de gênero esteve presente em 15,2% dos alertas. Mulheres representaram 30,2% das vítimas com gênero identificado. Entre os alertas com violência explícita de gênero, 77,4% envolveram comentários machistas, misóginos ou LGBTfóbicos, enquanto 16,1% corresponderam a atos discriminatórios diretos.



No cenário online, 55,4% dos alertas registrados pelo relatório — mais da metade dos casos —  tiveram origem ou repercussão online, reafirmando o ambiente digital como um cenário hostil para jornalistas. Principalmente pela dificuldade na identificação de agressores, o que prolonga a exposição das vítimas e amplia a sensação de impunidade.

Voltando para a perspectiva de gênero, os comentários machistas e misóginos representam a maior parte dos casos, aparecem em episódios como quando a jornalista Malu Gaspar, colunista de O Globo e comentarista da GloboNews, passou a sofrer ataques online após a publicação de uma reportagem que revelou conversas entre o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e o presidente do Banco Central, Gabriel Galipolo. 

Esses ataques nas redes sociais, direcionados a jornalistas em razão do conteúdo da apuração, quando voltados para profissionais mulheres, apresentam um caráter misógino e reforçam padrões que limitam a presença feminina no espaço público.


Confira um panorama geral do relatório! 


A importância dos registros 

Ainda durante a palestra, os jornalistas Fábio Bispo e Tatiana Farah levantaram a importância da documentação e divulgação desses dados para discutir as principais ameaças no exercício da profissão, destacando o crescente uso de processos judiciais abusivos contra jornalistas, fenômeno reconhecido como assédio judicial. 

“O assédio judicial é  um tipo de violência que não existia e passou a se tornar uma violência muito comum e que desestabiliza muitos jornalistas. Uma ação judicial ou uma ação criminal contra o jornalista pode acabar com a vida de alguém. Essa violência se tornou uma estratégia muito voraz de ataque ao jornalismo”, destacou Bispo. 

Iniciativas como o relatório de monitoramento de ataques a jornalistas e o Monitor de Assédio Judicial contra Jornalistas da Abraji revelam dados alarmantes desse mecanismo intimidatório e contribuem na elaboração de novas práticas para acolher, da melhor forma possível, os jornalistas que precisem de suporte. É o que explicou Tatiana Farah: “a vitória do assediador judicial não estar em ganhar a ação, mas sim em abrir o processo contra nós, nos mobilizando, incomodando e causando danos financeiros”. 

Ela também destacou o trabalho da Coalizão em Defesa do Jornalismo, a CDJor,  uma articulação de 11 organizações —  incluindo a Abraji —  da sociedade civil que trabalha para proteger a liberdade de imprensa. 

Letícia Kleim completa que o esforço da Abraji e de outras instituições em  registrar esses dados é para evidenciar que não se tratam de casos isolados e que a violência contra jornalistas não deve ser normalizada. “Isso impacta diretamente o acesso da população a informações de interesse público e à própria democracia”, reiterou Letícia.  

Relatório disponível

A Abraji já havia publicado uma matéria com um panorama geral dos resultados do relatório "Ataques gerais e violência de gênero contra jornalistas no Brasil" que pode ser conferida aqui. Clique neste link para acessar o relatório na íntegra.



*Crédito foto de capa: Maressa Andrioli ateliê Selva 

Assinatura Abraji